Quando a vontade de acertar tudo faz você adiar projetos, desmanchar demais e até deixar de criar.

Você já teve vontade de fazer uma peça, escolheu o fio, separou as agulhas, salvou a receita e, na hora de começar, veio aquele pensamento: “E se não ficar perfeito?”. Ou talvez você tenha começado e desmanchado várias vezes porque um ponto ficou um pouco diferente, uma tensão não ficou exatamente igual à da receita ou o resultado não parecia com a fotografia que serviu de inspiração. Isso é o perfeccionismo que nos trava na hora de tecer peças em crochê ou tricô, e que realmente é real. Eu noto, inclusive, que esse tipo de reação é muito comum entre minhas alunas e amigas, principalmente as iniciantes.
Dessa forma, o medo de errar pode transformar uma atividade que deveria trazer prazer em uma espécie de teste de desempenho. E o mais curioso é que pesquisas sobre perfeccionismo mostram justamente uma relação entre a preocupação excessiva em atingir um ideal e a tendência a adiar ou evitar tarefas. Vamos falar um pouquinho sobre isso?
Entre outras coisas, as redes sociais mudaram bastante a maneira como enxergamos o artesanato. Afinal, todos os dias encontramos peças lindas, fotografadas com iluminação perfeita, modelos cuidadosamente produzidas, e trabalhos feitos por pessoas que talvez tenham muitos anos de experiência. No entanto, nem sempre encontramos só inspirações, o problema aparece quando começamos a comparar o nosso primeiro cachecol com o trabalho de alguém que já fez centenas deles.
Deste modo, a comparação cria uma expectativa que nem sempre corresponde ao processo real de aprendizagem. Além disso, uma peça artesanal também pode ter pequenas diferenças de tensão, acabamento ou formato e continuar sendo uma peça bonita e cheia de significado. Por isso, eu sempre lembro minhas alunas que não somos máquinas e o erro faz parte do processo de aprendizagem, ele vai acontecer e está tudo bem!
Sobretudo, existe uma diferença interessante entre querer fazer bem-feito e acreditar que só vale a pena fazer quando existe a garantia de que ficará perfeito. Quando colocamos a perfeição como condição para começar, podemos passar muito tempo escolhendo a receita ideal, o fio perfeito e a cor mais adequada, sem realmente colocar as mãos na massa.
Além disso, mesmo depois de começar, podemos entrar em um ciclo de corrigir, desmanchar e recomeçar, é terrível. Pesquisas sobre perfeccionismo e procrastinação encontraram justamente uma relação entre a preocupação de não atingir o padrão ideal e o adiamento das tarefas. No artesanato, isso pode aparecer de uma forma bem silenciosa.
Afinal, você não diz que desistiu do tricô ou do crochê. Apenas vai deixando aquela peça para depois. Quando percebe, passou uma semana, um mês ou até mais tempo sem terminar algo que gostaria muito de fazer, você já não lembra mais como era o padrão e bate o desânimo de recomeçar.

Então, uma maneira mais leve de lidar com esse perfeccionismo que nos trava na hora de fazer o crochê ou o tricô é mudar a pergunta. Em vez de começar uma peça pensando “será que vai ficar perfeita?”, experimente pensar: “o que eu vou aprender fazendo esta peça?”. Pode ser uma nova montagem de pontos, uma maneira diferente de fazer aumentos, uma técnica de acabamento ou simplesmente aprender como determinado fio se comporta.
Essa mudança parece pequena, mas tira um pouco do peso do resultado final e devolve atenção ao processo. Afinal, existe uma boa razão para valorizar esse processo. Há muitos pontos positivos envolvidos em fazer um trabalho manual como: bem-estar, sensação de pertencimento, realização, propósito e identidade. Consequentemente, tirar o foco da peça perfeita e abraçar todos esses aspectos do tecer, melhoram muito a experiência.
E vamos ser sinceras? Nem toda peça precisa virar uma obra-prima. Algumas peças existem para você aprender. Outras existem porque você gostou daquela cor. Algumas vão ficar maravilhosas e outras talvez tenham um acabamento que você faria diferente hoje. E tudo bem. Uma peça que você fez há alguns anos também pode ser uma fotografia do seu desenvolvimento como artesã, por isso sempre peço que você guarde suas primeiras peças.
Meu primeiro cardigan de bebê tem um dos braços saindo das costas da peça, e hoje eu adoro rir quando vejo ele e consegui perceber o quanto aprendi, desde então. Eu acho especialmente bonito pensar que o tricô e o crochê não precisam ser uma prova de habilidade. Eles podem ser um lugar onde experimentamos, erramos, descobrimos, recomeçamos e, principalmente, fazemos alguma coisa com as nossas próprias mãos.
Sobretudo, talvez o maior exercício seja permitir que a peça exista mesmo quando ela não corresponde exatamente à imagem que você tinha imaginado. Afinal, se alguma coisa deu errado, você pode corrigir. Mas, se não quiser corrigir, pode apenas continuar. Se realmente não gostar, pode desmanchar e tentar novamente. O importante é não deixar que o medo de errar impeça você de experimentar. No tricô e no crochê, a gente aprende fazendo, e cada ponto também carrega um pouco da nossa história naquele momento. Sendo assim, abandonar o perfeccionismo é a primeira regra a seguir. Então, se existe uma receita guardada há meses porque você está esperando se sentir pronta, talvez seja justamente a hora de começar. Não precisa ser perfeito. Precisa apenas ser seu!
Este post foi escrito por mim, Day Vaz do site Eu Amo Tricô. Sou apaixonada por tricô e há vários anos compartilho receitas, dicas, aulas e um pouco do dia a dia do meu ateliê nas redes sociais. Venha tricotar comigo no site www.euamotrico.com.br ou me acompanhe no Instagram @blogbyday. Não esqueça de marcar suas criações com #semprecirculo e #blogbyday — vou adorar ver o que você anda tricotando por aí!
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